Obesidade é doença?

SIM - A obesidade é uma doença grave: muito além do excesso de peso
Durante muito tempo, a obesidade foi tratada como uma simples consequência de comer demais ou fazer pouca atividade física. Hoje, sabemos que essa visão é incompleta.
A obesidade é uma doença crônica, recorrente, complexa e multifatorial, que pode afetar diversos órgãos e aumentar o risco de várias outras doenças. Por isso, não deve ser encarada apenas como uma questão estética ou como falta de força de vontade.
Diretrizes médicas recentes reforçam que o tratamento da obesidade deve ter como objetivo não apenas reduzir o peso, mas também diminuir o risco de complicações, melhorar a saúde e aumentar a qualidade de vida.
Por que a obesidade é considerada uma doença?
O organismo humano possui mecanismos complexos que regulam fome, saciedade, gasto energético e armazenamento de gordura.
Esses mecanismos podem ser influenciados por diversos fatores, como genética, hormônios, sono, alimentação, medicamentos, ambiente, saúde mental, atividade física e condições metabólicas.
Por isso, duas pessoas podem ter alimentação e rotina semelhantes e apresentar respostas completamente diferentes em relação ao peso.
A obesidade não pode ser explicada por um único fator.
Ela resulta da interação de múltiplos fatores e pode apresentar evolução crônica e progressiva. Estudos brasileiros também destacam que a obesidade grave está associada a maior risco de complicações, redução da qualidade de vida e menor expectativa de vida.
Obesidade não é apenas estar acima do peso
O excesso de gordura corporal pode provocar alterações metabólicas e inflamatórias que afetam diferentes sistemas do organismo.
Entre os problemas associados à obesidade estão:
diabetes tipo 2;
hipertensão arterial;
alterações do colesterol e triglicerídeos;
doenças cardiovasculares;
insuficiência cardíaca;
apneia obstrutiva do sono;
doença hepática relacionada ao excesso de gordura;
problemas articulares;
alterações metabólicas;
alguns tipos de câncer;
redução da qualidade de vida.
Uma publicação recente descreve mais de 200 possíveis complicações associadas à obesidade, envolvendo diferentes sistemas do organismo.
Por isso, olhar apenas para o número apresentado na balança pode esconder uma parte importante do problema.
O coração também sofre
A relação entre obesidade e doenças cardiovasculares é particularmente importante.
A obesidade está associada a fatores como hipertensão, diabetes, alterações do colesterol e inflamação crônica, que podem contribuir para o desenvolvimento de doenças cardiovasculares.
Além disso, o excesso de tecido adiposo pode provocar alterações estruturais e funcionais no coração.
A Diretriz Brasileira de 2025 destaca a obesidade como um importante fator de risco cardiovascular e recomenda que a avaliação do paciente considere seu risco cardiovascular e suas possíveis complicações.
Isso muda a maneira como devemos enxergar o tratamento.
O objetivo não deve ser apenas perder peso. É preciso reduzir os riscos que o excesso de gordura está causando à saúde.
Obesidade e diabetes: uma relação importante
A obesidade é um dos principais fatores associados ao desenvolvimento do diabetes tipo 2.
O excesso de gordura corporal, principalmente quando acompanhado de aumento da gordura visceral, está relacionado à resistência à insulina.
Com o passar do tempo, o organismo pode apresentar maior dificuldade para controlar a glicose no sangue.
A boa notícia é que a redução de peso pode melhorar diversos fatores de risco metabólicos e, em determinadas situações, ajudar a prevenir ou retardar o desenvolvimento do diabetes tipo 2.
A diretriz brasileira de 2025 recomenda redução sustentada de pelo menos 5% do peso em adultos com sobrepeso ou obesidade e risco cardiovascular moderado, justamente pela possibilidade de melhorar fatores de risco como hipertensão e alterações lipídicas e retardar ou evitar o surgimento do diabetes tipo 2.
Dormir mal também pode estar relacionado à obesidade
A apneia obstrutiva do sono é outro problema frequentemente associado à obesidade.
Durante o sono, a pessoa apresenta episódios repetidos de obstrução das vias aéreas, podendo ocorrer quedas na oxigenação.
Isso pode provocar sonolência durante o dia, cansaço, dificuldade de concentração e alterações cardiovasculares.
A obesidade está entre os fatores relacionados à apneia, e a perda de peso pode contribuir para reduzir sua gravidade em determinados pacientes.
Por isso, roncar intensamente, acordar cansado ou apresentar sonolência excessiva durante o dia não deve ser simplesmente considerado "normal".
Pode ser necessário investigar.
A obesidade pode afetar a qualidade de vida
Os impactos da obesidade não são apenas físicos.
Dor, dificuldade para realizar atividades cotidianas, limitação para praticar exercícios, alterações do sono, problemas metabólicos e dificuldades relacionadas à mobilidade podem comprometer significativamente a qualidade de vida.
Além disso, pessoas com obesidade frequentemente enfrentam estigma e preconceito, inclusive em ambientes de saúde.
Esse preconceito pode fazer com que algumas pessoas deixem de procurar ajuda ou adiem o tratamento.
Diretrizes atuais reforçam a importância de reduzir o estigma relacionado ao peso e tratar a obesidade de maneira individualizada e centrada na pessoa.
"É só fechar a boca e fazer exercício"?
Essa frase parece simples, mas não representa a complexidade da doença.
Alimentação equilibrada e atividade física são componentes fundamentais do tratamento.
Porém, algumas pessoas podem precisar de estratégias adicionais.
Dependendo do grau da obesidade, presença de doenças associadas, histórico de tratamentos e características individuais, o médico pode considerar diferentes possibilidades terapêuticas, que podem incluir acompanhamento nutricional e comportamental, medicamentos, procedimentos endoscópicos ou cirurgia bariátrica.
A escolha deve ser individualizada.
A diretriz brasileira de 2025 propõe justamente uma abordagem baseada no risco e nas complicações associadas à obesidade, e não exclusivamente no IMC ou na quantidade de peso a ser perdida.
Nem todo paciente precisa do mesmo tratamento
Esse é um dos pontos mais importantes.
A obesidade pode apresentar diferentes graus de gravidade e diferentes complicações.
Uma pessoa pode ter obesidade e não apresentar nenhuma doença associada identificada.
Outra pode apresentar hipertensão, diabetes, apneia do sono, doença cardiovascular ou alterações hepáticas.
Consequentemente, o tratamento não pode ser igual para todos.
O médico precisa avaliar o paciente como um todo para determinar os objetivos e a estratégia mais adequada.
Quanto antes cuidar, melhor
Reconhecer a obesidade como uma doença não significa colocar um rótulo no paciente.
Significa reconhecer que existe um problema de saúde que merece atenção.
Quanto mais cedo os fatores de risco e as complicações forem identificados, maiores são as possibilidades de estabelecer uma estratégia adequada para proteger a saúde.
O tratamento também não precisa esperar que a pessoa atinja um grau extremo de obesidade.
A avaliação precoce permite identificar riscos, estabelecer metas realistas e determinar quando intervenções adicionais podem ser necessárias.
O objetivo não é apenas emagrecer
Essa é uma mudança importante na medicina da obesidade.
O número apresentado pela balança é relevante, mas não é o único indicador de sucesso.
Um bom tratamento também pode buscar:
melhorar a pressão arterial;
controlar a glicemia;
melhorar o colesterol;
reduzir gordura visceral;
melhorar a qualidade do sono;
reduzir dores e limitações físicas;
melhorar a capacidade de realizar atividades;
reduzir o risco cardiovascular;
melhorar a qualidade de vida;
prevenir ou controlar doenças associadas.
A abordagem atual recomenda priorizar a melhora da saúde e a redução das complicações, e não apenas uma determinada meta de peso.
Obesidade tem tratamento
Reconhecer a obesidade como uma doença grave não significa dizer que não existe solução. Pelo contrário.
Significa reconhecer que ela merece tratamento adequado.
Atualmente existem diferentes estratégias terapêuticas disponíveis, e a evolução da medicina ampliou significativamente as possibilidades de tratamento.
O mais importante é identificar qual estratégia é adequada para cada paciente.
Isso pode incluir mudanças no estilo de vida, acompanhamento nutricional, tratamento medicamentoso, terapias endoscópicas e, quando indicada, cirurgia metabólica ou bariátrica.
Quando procurar ajuda?
É importante procurar avaliação médica quando existe:
aumento progressivo do peso;
dificuldade persistente para perder peso;
histórico de tentativas de emagrecimento sem resultados duradouros;
pressão alta;
alteração da glicemia;
colesterol ou triglicerídeos elevados;
ronco intenso ou suspeita de apneia;
dores articulares relacionadas ao excesso de peso;
falta de ar ou redução da capacidade física;
histórico familiar importante de doenças metabólicas ou cardiovasculares.
A avaliação não serve apenas para determinar "quanto você precisa emagrecer".
Ela permite entender como o excesso de peso está afetando sua saúde.
Obesidade é uma doença. E merece ser tratada com seriedade.
A obesidade não deve ser motivo de culpa, vergonha ou julgamento. Também não deve ser ignorada.
É uma doença crônica que pode afetar diversos órgãos, aumentar o risco de outras doenças e comprometer a qualidade e a expectativa de vida.
Ao mesmo tempo, existem tratamentos eficazes e diferentes estratégias que podem ser utilizadas de acordo com as características de cada paciente.
O primeiro passo é reconhecer o problema e procurar ajuda especializada.
Na Clínica Endonette, o tratamento do excesso de peso deve começar com uma avaliação individualizada, buscando compreender o estado de saúde do paciente e definir uma estratégia adequada, segura e baseada em evidências.
Obesidade é uma doença. Cuidar dela é cuidar da sua saúde, da sua qualidade de vida e do seu futuro.
Autor: Guilherme Carvalho
Referências científicas
Valerio CM et al. 2025 Brazilian evidence-based guideline on the management of obesity and prevention of cardiovascular disease and obesity-associated complications: a position statement by five medical societies. Diabetology & Metabolic Syndrome. 2025.
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Construção e validação de instrutivo para o cuidado nutricional da pessoa com obesidade grave no Sistema Único de Saúde. Ciência & Saúde Coletiva / SciELO. 2025.




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